quarta-feira, 6 de julho de 2016

Evangelho sem Evangelização: Uma aberração!



Jorge Henrique Barro
Curiosamente as palavras “EVANGELIZAR, EVANGELISMO E EVANGELIZAÇÃO” não aparecem na Bíblia. O que aparece é a palavra EVANGELHO e a ações que devem ser realizadas em torno dele.

Fiz uma pesquisa (está na íntegra em meu livro: MISSÃO PARA A CIDADE, publicado pela Editora Descoberta, Cap. 5) analisando TODAS as vezes em que a palavra EVANGELHO surge na Bíblia. E todas as vezes que a palavra EVANGELHO surge, um VERBO desponta. Isso por si só revela que o EVANGELHO é ação! E quais são esses verbos relacionados à palavra EVANGELHO? São quatro: PREGAR, ANUNCIAR, TESTEMUNHAR E PROCLAMAR.
Exemplos:
• PREGAR
“E este EVANGELHO do Reino será PREGADO em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mt 24:14).

• ANUNCIAR
“Irmãos, quero que saibam que o EVANGELHO por mim ANUNCIADO não é de origem humana” (Gl 1:11).

• TESTEMUNHAR
“Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de TESTEMUNHAR do EVANGELHO da graça de Deus” (At 20:24).

• PROCLAMAR
“...por causa da graça que Deus me deu, de ser um ministro de Cristo Jesus para os gentios, com o dever sacerdotal de PROCLAMAR o EVANGELHO de Deus, para que os gentios se tornem uma oferta aceitável a Deus, santificados pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Essas ações relacionadas ao evangelho – PREGAR, ANUNCIAR, TESTEMUNHAR e PROCLAMAR – revelam nossa missão perante o Evangelho de Cristo. Não podemos pensar que esses verbos estão apenas na esfera do “dizer”. Em relação ao evangelho nós SOMOS o testemunho, DIZEMOS o testemunho e FAZEMOS o testemunho (SER-DIZER-FAZER). Somos servos/as desse Evangelho. Esse Evangelho, o de Cristo, é a mensagem da Boa Nova. O próprio Cristo é a Boa Nova. O que é o Evangelho? O Evangelho é Cristo. Por isso, “não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus” (2 Co 4:3), sendo “a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4:3). Nós pregamos, anunciamos, testemunhamos e proclamamos Cristo, o Evangelho que é a Boa Notícia do Pai ao mundo.
Creio que ficou claro! Será?
Se está claro nas Sagradas Escrituras não parece estar tão claro para a igreja e seus participantes hoje. Por onde passo, desde HISTÓRICOS até PENTECOSTAIS, a EVANGELIZAÇÃO é coisa rara, de uns poucos que são considerados os “chatos” da igreja, ou renegada a um ministério (normalmente chamado de “Ministério de Evangelização”, como se não fosse para todos, um departamento da igreja). Sem medo de eu ser aqui taxado de fazer uma generalização, afirmo conscientemente que são raras as igrejas que possuem um compromisso com a EVANGELIZAÇÃO, e isso desde os pastores, líderes e membros da igreja. Faz muito tempo que não encontro uma classe/curso na igreja sobre EVANGELIZAÇÃO. É fácil achar cursos da Escola Dominical/Bíblica sobre, por exemplo, “Os fundamentos da fé cristã”, “Introdução à Bíblia”, “Os heróis da fé”, “Doutrina cristã”, “Primeiros passos”, “Escatologia”, “Apologética”, etc (e todos necessários e importantes). Porém, se existe um curso que deveria ser de “FORMAÇÃO PERMANENTE” na igreja é EVANGELIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA (ou HOJE). Esse curso jamais deveria deixar de ser oferecido. Inclusive, penso que, se deve ter um pré-requisito para ser membro de uma igreja, deveria ser o compromisso com a evangelização, em palavras e obras. Hoje os pré-requisitos são as classes de Catecúmenos, os Catecismos, os Sacramentos, e coisas do tipo que indicam como a pessoa se tornará “MEMBRO” da igreja. Ela é batizada, recebida como membro oficial da igreja, mas não evangeliza (é óbvio que eu nem precisaria explicar que tais ensinamentos são importantes para os novos membros da igreja). Uma formação permanente para evangelizar as pessoas em seus seguimentos de vida, como: mercado de trabalho, jovens, adolescentes, crianças, terceira idade, pobres, ricos, profissionais liberais, universitários, analfabetos, etc. A igreja lida com gente e gente que experimenta suas necessidades específicas. Uma coisa é ser membro de igreja; outra é ser um discípulo comprometido com Cristo e Seu evangelho. Se for ambos, Deus seja louvado!
Apresento dois exemplos de pessoas que foram evangelizadas e que em seguida foram evangelizar, mesmo sem treinamento. Alguns preferem comentar tais exemplos assim: “Viu, elas nem capacitadas foram e já saíram para evangelizar”, querendo com isso advogar a não necessidade de preparo. Prefiro não ir por esse caminho. Prefiro pensar assim: “Se eles foram por obediência e fé, ainda que sem preparo e Deus os usou, imagine quando forem melhores preparados como Deus não os usará ainda mais”. E no caso de ambos, o que falou forte foi o TESTEMUNHO, pois tinham um estilo de vida muito complicado na sociedade e a restauração deles falava forte. Então ambos apresentaram Cristo a partir daquilo que Ele tinha feito em suas vidas. No caso da mulher, “venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito”. No caso do homem, “anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele”.
Confira...
A MULHER SAMARITANA:
Ao ser evangelizada por Jesus ela imediatamente foi evangelizar: “Então, deixando o seu cântaro, a mulher voltou à cidade e DISSE AO POVO: "Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Será que ele não é o Cristo?" Então saíram da cidade e foram para onde ele estava” (Jo 4:28-30).

Resultado:
“Muitos samaritanos daquela cidade CRERAM nele POR CAUSA DO SEGUINTE TESTEMUNHO DADO PELA MULHER: "Ele me disse tudo o que tenho feito" (Jo 4:39).

UM HOMEM DOMINADO POR DEMÔNIOS
Jesus evangeliza esse homem possuído por uma legião de demônios: “Pois Jesus havia ordenado que o espírito imundo saísse daquele homem. Muitas vezes ele tinha se apoderado dele. Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de guardas, quebrava as correntes, e era levado pelo demônio a lugares solitários. Jesus lhe perguntou: "Qual é o seu nome?" "Legião", respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele” (Lc 8:29-30).

Resultado:
“O homem de quem haviam saído os demônios suplicava-lhe que o deixasse ir com ele; mas JESUS O MANDOU EMBORA, dizendo: "VOLTE PARA CASA E CONTE O QUANTO DEUS LHE FEZ". Assim, O HOMEM SE FOI E ANUNCIOU A TODA A CIDADE o quanto Jesus tinha feito por ele” (Lc 8:38-39).

Moral das duas histórias: O EVANGELIZADO VAI EVANGELIZAR! Simples assim! Mas não nos dias de hoje, onde o evangelizado vai para a igreja e, de vez em quando, leva uma pessoa que não conhece Jesus para ser evangelizada. É a inversão da ordem de Jesus – “venham” em vez de “ide”.
E assim vai o “EVANGELHO SEM EVANGELIZAÇÃO” - UMA SEPARAÇÃO INSEPARÁVEL!
- EVANGELHO SEM EVANGELIZAÇÃO é clube, é instituição, é religião, é um grupo que vive para si mesmo, é festa ritualista, é lazer, é encontro dos salvos, é adoração sem missão.
- EVANGELIZAÇÃO SEM EVANGELHO é traição a Jesus, é igrejanismo em vez de Cristianismo, é prosperidade sem cruz, é convite sem compromisso.

"O semeador SAIU a semear. Enquanto lançava a semente... caiu em boa terra, deu boa colheita, a cem, sessenta e trinta por um” (Mt 13:3s). Nossa tarefa é SAIR e SEMEAR lançando a SEMENTE na espera da COLHEITA.
Igrejas que crescem sem fazer esse processo – SAIR-SEMEAR-SEMENTE-COLHEITA estão pulando a cerca do outro campo e colhendo o que não semearam. Isso é roubo! E todos nós sabemos como isso acontece e como podemos verificar se isso acontece. É claro que ninguém pode impedir que gente de outra igreja escolha a nossa para participar, mas se o crescimento é apenas por tal via, isso não passa de trânsito religioso entre prosélitos de gente que saiu de lá para chegar aqui. É apenas mudar os números e estatísticas de lugar, na ilusão de que minha igreja está crescendo.
Pense...
- Uma igreja e um povo que não evangeliza é uma aberração.
- Uma igreja que não evangeliza precisa ser evangelizada.
- Uma igreja que não evangeliza não tem motivo para ter o evangelho.
- Um cristão que não evangeliza corre o risco de um dia ser evangelizado por alguém e pagar o mico por ser um agente invisível do evangelho.
- Evangelizar é um ato de amor, pois ninguém evangeliza a quem não ama.
- Evangelizar é um mendigo dizendo a outro mendigo onde encontrou o pão.
- Evangelizar, acima de tudo, é um ato de amor por aquele que nos evangelizou a paz, Jesus!

Ou a igreja evangeliza ou então ela não é igreja.
EVANGELHO SEM EVANGELIZAÇÃO: UMA ABERRAÇÃO!
EVANGELHO COM EVANGELIZAÇÃO: UMA COMBINAÇÃO PERFEITA, POIS UM FOI FEITO PARA O OUTRO.

Vamos em frente: “Cristo em nós, esperança da glória!”

Jorge Henrique Barro é Doutor em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (EUA) - Professor e Responsável pelo Departamento de Desenvolvimento Institucional (DDI) da Faculdade Teológica Sul Americana - Presidente da Fraternidade Teológica Latino Americana (Continental) - Avaliador do MEC para Teologia.

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